Sentado na recepção de uma clínica médica, enquanto aguardava a realização de um exame, comecei a observar as pessoas que estavam ao meu redor.
Uma cena me chamou particularmente a atenção: alguns casais estavam sentados lado a lado, mas não conversavam. Cada um permanecia concentrado na tela do próprio celular. Ao redor, outras pessoas também estavam com os olhos fixos em seus aparelhos, aparentemente mergulhadas em um mundo particular.
Aquela cena me fez pensar sobre algo que a Psicanálise conhece muito bem: a diferença entre estar junto e estar em presença do outro.
Estar fisicamente ao lado de alguém não significa necessariamente estar psiquicamente disponível para essa pessoa.
O que estamos evitando quando olhamos para a tela?
Na perspectiva psicanalítica, o comportamento humano não é compreendido apenas pelo que é visível. Por trás de um comportamento aparentemente simples, como pegar o celular, podem existir diferentes sentidos e motivações.
O celular pode ser entretenimento, comunicação, trabalho ou simplesmente uma maneira de passar o tempo. Mas também pode funcionar, em determinadas situações, como uma forma de evitar o silêncio, o tédio, a ansiedade ou até mesmo o encontro com o outro.
Porque o encontro verdadeiro exige algo de nós.
Quando conversamos com alguém, precisamos escutar. Precisamos nos colocar em relação. Precisamos lidar com aquilo que o outro diz e, muitas vezes, com aquilo que sentimos diante do que ele diz.
A tela oferece uma alternativa muito mais previsível.
Podemos escolher o que queremos ver, quando queremos responder e, principalmente, podemos interromper o contato com aquilo que nos incomoda.
O silêncio que existe entre duas pessoas
Talvez uma das coisas mais interessantes daquela sala de espera fosse justamente o silêncio.
Havia pessoas acompanhadas, mas muitas pareciam estar sozinhas.
Dois corpos sentados lado a lado não necessariamente constituem um encontro.
Na Psicanálise, o vínculo com o outro ocupa um lugar fundamental na constituição do sujeito. É na relação que nós reconhecemos, somos afetados e também descobrimos aspectos de nós mesmos.
Por isso, quando um casal permanece lado a lado durante vários minutos sem trocar uma palavra, enquanto ambos estão absorvidos pelo celular, talvez seja interessante perguntar:
O que está acontecendo entre essas duas pessoas?
Não podemos concluir, apenas pela cena, que existe um problema no relacionamento. Mas podemos utilizá-la como um retrato de uma questão contemporânea: estamos cada vez mais conectados às telas e, paradoxalmente, podemos estar nos desconectando de quem está ao nosso lado.
A tela como objeto de fuga
Freud nos ensinou que o ser humano desenvolve diferentes formas de lidar com aquilo que provoca desconforto.
Hoje, o celular pode ocupar um lugar privilegiado nesse funcionamento.
Basta alguns segundos de silêncio para que a mão procure o aparelho.
Estamos esperando? Celular.
Estamos entediados? Celular.
Estamos ansiosos? Celular.
Estamos acompanhados, mas não sabemos o que dizer? Celular.
Estamos sozinhos? Celular.
A questão não é demonizar a tecnologia. O problema começa quando não conseguimos mais suportar alguns minutos de silêncio sem precisar preenchê-los com estímulos.
Talvez tenhamos perdido um pouco da capacidade de simplesmente estar.
Estar com alguém.
Estar conosco.
Estar em silêncio.
E quando isso acontece dentro dos relacionamentos?
Essa reflexão se torna ainda mais importante quando pensamos nos casais.
A intimidade não é construída apenas por grandes declarações de amor. Ela também se constrói nos pequenos momentos cotidianos: uma conversa durante o jantar, um olhar, uma pergunta sobre como foi o dia, um silêncio compartilhado, uma escuta verdadeira.
Relacionamentos precisam de presença.
E presença não é apenas estar fisicamente disponível.
Presença é permitir que o outro perceba: “eu estou aqui com você”.
Talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer atualmente seja:
Quando estou ao lado de quem amo, estou realmente presente ou apenas ocupando o mesmo espaço?
A cena daquela sala de espera durou apenas alguns minutos, mas deixou uma reflexão profunda.
Vivemos em uma época em que podemos conversar instantaneamente com alguém que está do outro lado do mundo, mas corremos o risco de não conversar com quem está sentado ao nosso lado.
Talvez o desafio contemporâneo não seja apenas aprender a usar melhor a tecnologia.
Talvez seja aprender novamente a olhar nos olhos, escutar, conversar e suportar o silêncio do encontro.
Porque, no fim, nenhuma tela substitui aquilo que acontece quando duas pessoas realmente se encontram.